domingo, 8 de junho de 2008

EPIDEMIA

No Brasil, cinco milhões são portadores do HCV, vírus da hepatite C. O índice é oito vezes superior do que o da Aids

Uma epidemia silenciosa assola o Brasil e já atinge quase cinco milhões de pessoas no país. O número de pessoas infectadas supera em oito vezes a contaminação pelo HIV, vírus causador da Aids, que hoje chega a 600 mil. Estamos falando da hepatite C (HCV). A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que aproximadamente 177 milhões de pessoas no mundo estejam cronicamente infectadas, o que corresponde a 3% da população mundial.

Entre as hepatites conhecidas, a do tipo C é a que mais pode resultar em casos crônicos - em 85% dos casos, contra cerca de 15 a 20% na do tipo B, que em geral é combatida pelo próprio sistema de defesa do organismo. Isso significa que, num prazo de até 20 anos, essas pessoas estão sujeitas ao surgimento de uma cirrose ou de câncer de fígado, o que pode resultar no transplante do órgão como única opção de tratamento. Ao contrário do que ocorre com as hepatites A e B, não existe vacina para a do tipo C.

Hepatite C é o nome por que se conhece a doença hepática crônica causada por infecção pelo vírus HCV. A maioria das contaminações está associada a uso de drogas injetáveis (38%), transfusão sangüínea (40%) e relações sexuais (5%). O HCV ameaça ainda os profissionais de saúde. A possibilidade de um médico ou enfermeiro contrair a doença após ser exposto a ela em serviço é cerca de oito vezes superior ao risco de contrair HIV na mesma situação.

Manicure, piercing e dentista são práticas comuns que oferecem o risco da contaminação

Práticas comuns, como freqüentar a manicure, colocar um piercing ou ir ao dentista devem receber maior atenção, recomenda o Ministério da Saúde. O vírus da Hepatite C é resistente: qualquer contato com o sangue de uma pessoa infectada pode transmitir a doença. O presidente do Grupo Esperança, Ong que ampara portadores da doença, Jeová Pessin, considera o HCV um vírus “democrático”, por atingir qualquer pessoa, independentemente da condição socioeconômica.

A doença pode demorar até 20 anos para manifestar sintomas. Por isso, estima-se que cerca de 40% dos portadores de HCV não saibam da sua condição sorológica. Quanto mais cedo acontece o diagnóstico, melhor o tratamento. Para Pessian, o que falta é informação sobre a doença. "Campanhas de prevenção e incentivo ao teste de detecção (anti-HCV) são fundamentais para evitar o avanço da doença”, diz. “Toda a luta é para que não cheguemos à necessidade de transplante de fígado”, completou, em alusão ao tratamento recomendado para os casos mais graves.

A falta de informação, aliada ao difícil tratamento, gera pânico nas pessoas que recebem o diagnóstico positivo. Logo que o paciente fica informado da doença, precisa fazer um exame de biologia molecular, chamado de PCR. Esse exame tem um custo médio, em São Paulo, de R$ 800. Desde janeiro deste ano, o Sistema Único de Saúde (SUS) fornece gratuitamente o PCR, mas Pessian alerta que ainda são poucos os lugares que oferecem acesso ao serviço.

Outro problema enfrentado pelo paciente da hepatite C é o alto custo dos medicamentos, que também são distribuídos pelo SUS com precariedade. O tratamento, que dura 12 meses, não sai por menos de R$ 1 mil por semana. São dois tipos de medicação usados no Brasil: o Interferon e a Ribavirina, ambos com apenas 30% de potencial de cura.
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