quinta-feira, 14 de agosto de 2008

TRAVESSURA PERIGOSA



Longe dos olhares de pais e professores, adolescentes de vários países, inclusive do Brasil, têm se dedicado a uma travessura perigosa. Reunidos em grupos, na escola, em casa ou na rua, eles se estrangulam uns aos outros para provocar desmaios. O objetivo é alcançar as sensações de leveza, tontura e alucinação decorrentes da perda de sentidos, semelhantes às que ocorrem com a ingestão de drogas ilícitas que alteram a percepção. A brincadeira do desmaio, segundo os jovens, "dá barato". O problema é que essa prática é de altíssimo risco. O estrangulamento deflagra um processo que impede o fluxo de sangue para o cérebro, o que pode causar parada cardíaca e lesões cerebrais irreversíveis, paralisando parte dos movimentos do corpo. Pode até levar à morte. A brincadeira perigosa passa despercebida dos adultos, mas pode ser testemunhada à farta em sites de vídeo da internet, nos quais a garotada coloca imagens de suas experiências de desmaio.
Muitos pais só ficam sabendo da travessura quando algo dá errado. Isso aconteceu com a pernambucana Terezinha Nunes da Silva. Depois de praticar a brincadeira na escola, seu filho Adam, de 19 anos, não acordou do desmaio, teve convulsões e precisou ser levado para o hospital. Adam sofreu uma parada cardíaca em decorrência da sufocação voluntária. "Não imaginei que ele estivesse arriscando sua vida numa besteira dessas", ela diz. Depois do incidente, Adam precisou visitar médicos durante quatro meses para ter certeza de que não ficara com seqüelas.
Na França e nos Estados Unidos, uma série de mortes causadas pela brincadeira do desmaio fez com que se criassem grupos de alerta à população. Segundo o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, 82 crianças e adolescentes morreram no país por causa da brincadeira do desmaio entre 1995 e 2007. Na França, segundo a Apeas, uma associação de pais de vítimas da brincadeira do desmaio, a prática causa em média dez óbitos por ano. Diz o médico especialista em adolescentes Maurício de Souza Lima, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo: "A brincadeira é antiga, mas sua divulgação na internet fez com que se tornasse popular de novo. Os jovens acham que encontraram uma fonte de novas sensações sem os riscos envolvidos nas drogas ilegais". Doce – e perigosa – ilusão.

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